Por Tom Cerginer, cofundador do Juca, Correspondente Bancário Febraban (FBB100). Atualizado em outubro de 2026.
Quanto cobrar por hora freelancer não sai de dividir o salário desejado por 160. A conta certa é anual: some o quanto você precisa ganhar no ano mais os custos do ano e divida pelas horas que você realmente consegue faturar, que são bem menos do que as horas trabalhadas.
Resposta rápida:
- Dividir salário por 160 horas ignora férias, 13º salário, FGTS, feriados, impostos e custo fixo.
- A conta certa é anual: renda desejada mais custos, dividido pelas horas faturáveis do ano.
- Hora faturável é a hora vendida: proposta, prospecção e cobrança não entram nela.
- Um freelancer costuma faturar bem menos horas do que trabalha. Meça as suas.
- Faça a conta antes do próximo orçamento, na calculadora de taxa horária do Juca.
Quanto devo cobrar por hora sendo freelancer?
O valor da hora de um freelancer é o resultado de uma divisão anual: tudo o que você precisa receber em um ano, dividido pelas horas que você consegue vender nesse mesmo ano. Não é o salário do mês dividido por 160.
O método tem cinco passos: definir a renda que você quer receber no ano, somar os custos fixos, somar as reservas que substituem os benefícios do carteira assinada, calcular as horas faturáveis do ano e só então dividir. Cada passo entra detalhado nas seções seguintes, com um exemplo numérico fechado.
Se você quiser pular a aritmética e ir direto ao resultado, coloque os seus números na calculadora de taxa horária: ela é uma calculadora valor hora freelancer que já faz a divisão anual e separa as horas faturáveis das horas trabalhadas.
O erro de dividir o salário por 160 horas
Dividir o salário desejado por 160 horas produz um valor da hora que não cobre o seu ano. A conta ingênua é sedutora porque é simples: R$ 4.000 dividido por 160 horas dá R$ 25 por hora. O problema é que ela compara duas coisas diferentes.
O trabalhador com carteira assinada não recebe doze salários por ano, recebe treze, por causa do 13º salário. Ele tira trinta dias de férias remuneradas com um terço a mais, tem 8% da remuneração depositados pelo empregador no FGTS todo mês, e é pago nos feriados em que não trabalha.
Nada disso aparece no holerite como linha de custo, mas tudo isso está dentro do pacote. Quem é freelancer paga cada um desses itens do próprio bolso, com o dinheiro que entra pelas horas vendidas. Por isso o valor da hora precisa ser maior que o equivalente do carteira assinada, para produzir a mesma vida.
Para comparar os dois pacotes com calma, vale conhecer os direitos do trabalhador CLT antes de precificar.
O que o CLT ganha além do salário e você não ganha
| Item | O que é | Quem paga no CLT | Quem paga no freelancer |
|---|---|---|---|
| 13º salário | 1/12 da remuneração por mês trabalhado | Empregador | Você, como reserva |
| Férias e 1/3 | 30 dias corridos mais adicional de um terço | Empregador | Você, como reserva |
| FGTS | Depósito mensal de 8% da remuneração | Empregador | Você, poupando por conta |
| Feriados e dias parados | Dias sem produção, ainda pagos | Empregador | Você, sem faturar |
| Contabilidade | Folha, guias e declarações | Empregador | Você, como custo fixo mensal |
Os três primeiros itens têm base legal explícita. Segundo a Lei nº 4.090/1962, art. 1º, o 13º salário corresponde a 1/12 da remuneração de dezembro por mês trabalhado no ano (1962). As férias de trinta dias corridos vêm da CLT, arts. 129 e 130, e o adicional de um terço vem do art. 7º, XVII, da Constituição. E segundo a Lei nº 8.036/1990, art. 15, o empregador deposita 8% da remuneração do mês anterior na conta do FGTS até o dia 20 de cada mês (1990).
Hora trabalhada não é hora faturável
Hora trabalhada é toda hora em que você está a serviço do seu negócio. Hora faturável é só a hora que alguém paga.
As duas quase nunca são iguais, e é aí que a maioria dos orçamentos se perde: a pessoa calcula o preço como se vendesse quarenta horas por semana e vende bem menos. O preço por hora precisa cobrir também o tempo que não se vende.
Não são horas faturáveis, em regra:
- Prospecção de clientes e elaboração de orçamento e proposta comercial.
- Trabalho administrativo: cobrança, nota fiscal, contabilidade, banco e e-mail.
- Deslocamento até o cliente, quando não é cobrado à parte.
- Ociosidade: dias ou horas sem cliente, entre um trabalho e outro.
- Reunião de alinhamento não prevista no contrato.
- Estudo, atualização técnica e testes de ferramenta.
- Refação de trabalho por erro seu.
| Atividade | É hora trabalhada? | O cliente paga? |
|---|---|---|
| Execução do serviço contratado | Sim | Sim |
| Prospecção de clientes | Sim | Não |
| Elaboração de proposta | Sim | Não |
| Reunião de alinhamento não contratada | Sim | Não |
| Cobrança e follow-up de pagamento | Sim | Não |
| Administração e contabilidade | Sim | Não |
| Estudo e atualização | Sim | Não |
A proporção entre horas trabalhadas e horas faturáveis muda por pessoa, por área e por fase do negócio, e não existe estatística oficial brasileira que fixe esse percentual.
Em vez de adotar um número de internet, meça o seu: anote por duas semanas, hora a hora, o que foi vendido e o que não foi.
Veja um exemplo ilustrativo, só de aritmética. Numa semana de 44 horas trabalhadas, 8 horas vão para administrativo e orçamento, 6 horas para deslocamento e 4 horas ficam ociosas. Sobram 26 horas faturáveis, cerca de 59% do total.
Nesse exemplo, o valor da hora de trabalho tem de ser a renda que você precisa dividida pelas 26 horas vendidas, e não pelas 44 horas trabalhadas. Dividir pelas 44 faz cada hora sair cerca de 40% mais barata do que deveria.
Como cobrar deslocamento e visita técnica
Deslocamento e visita técnica se cobram à parte, ou entram no preço da hora, mas nunca ficam de graça. O mais seguro é deixar a regra escrita no orçamento, antes de sair de casa, para o cliente saber o que paga. Quatro formas comuns de organizar essa cobrança:
- Taxa de visita técnica fixa, abatida do valor se o serviço for fechado.
- Deslocamento cobrado por quilômetro ou pelo tempo de trajeto, ao seu valor-hora.
- Raio sem custo definido no orçamento, com cobrança só acima dele.
- Todas as condições escritas no orçamento e aceitas antes da visita.
Como calcular o valor da minha hora de trabalho?
Para saber como calcular valor hora, monte o total anual primeiro e divida depois. A ordem importa: quem divide antes de somar os custos sempre chega a um número menor do que precisa.
- Defina quanto você precisa receber no ano, líquido, para viver.
- Some os custos fixos do ano: internet, energia, software, contador, equipamento.
- Some as reservas de 13º salário, férias e a poupança que substitui o FGTS.
- Some os impostos estimados do ano, conforme o seu enquadramento.
- Calcule as horas faturáveis do ano e divida o total por elas.
O passo quatro é o que ninguém mostra. Parta de 52 semanas, tire 4 semanas de férias e cerca de 2 semanas equivalentes aos feriados e dias parados, e sobram 46 semanas úteis.
Multiplique essas 46 semanas pelas horas faturáveis por semana, não pelas 40 trabalhadas. No exemplo abaixo, com 20 horas vendidas por semana, o ano tem 920 horas faturáveis.
| Item | Valor no ano (R$) |
|---|---|
| Renda desejada (R$ 4.000 por mês) | 48.000,00 |
| Reserva do 13º (R$ 4.000) mais o terço de férias (R$ 1.333) | 5.333,00 |
| Reserva que substitui o FGTS (8%) | 3.840,00 |
| Custos fixos do ano | 7.200,00 |
| Impostos estimados (DAS-MEI de serviços, 12 meses) | 1.033,00 |
| Total a faturar no ano | 65.406,00 |
| Horas faturáveis no ano (46 semanas x 20 horas/semana) | 920 horas |
| Valor por hora | R$ 71,09/hora |
Valores exclusivamente ilustrativos, para demonstrar o método. Faça a conta com os seus números.
A diferença salta aos olhos: a conta ingênua dava R$ 25 por hora, e a conta anual dá R$ 71,09, quase três vezes mais. Por último entra a margem de contingência, que cobre atraso do cliente, retrabalho e mês fraco.
Com 10% de margem, a hora vai a R$ 78,20. Essa margem não é lucro extra, é o que evita que um imprevisto coma a sua reserva de férias.
Quais impostos um freelancer ou MEI paga?
O imposto do freelancer é um custo que entra na conta antes da divisão, e não um assunto para resolver depois. Quem esquece essa linha descobre no fim do ano que trabalhou de graça algumas semanas.
Definir quanto cobrar sendo MEI passa por três números:
- Limite de faturamento do MEI: R$ 81.000,00 por ano, segundo o Ministério do Empreendedorismo, válido em 2026. A Lei Complementar nº 238/2026 eleva o teto a partir de 2027 e chega a R$ 140.000,00 por ano em 2028.
- DAS mensal do MEI em 2026, segundo o Simples Nacional: R$ 82,05 para comércio e indústria, R$ 86,05 para serviços e R$ 87,05 para comércio e serviços. O valor é 5% do salário mínimo de R$ 1.621, mais R$ 1 de ICMS e/ou R$ 5 de ISS.
- Autônomo sem CNPJ: contribuição ao INSS como contribuinte individual, de 11% sobre o salário mínimo no plano simplificado ou 20% sobre o salário de contribuição no plano normal, conforme a Lei nº 8.212/1991.
Quem recebe de pessoa física ainda tem o carnê-leão, recolhimento mensal do imposto de renda. Desde 1º de janeiro de 2026, pela Lei nº 15.270/2025, há isenção efetiva e tributação reduzida em faixas de renda mensal mais baixas; confira os valores atualizados na tabela da Receita Federal. O detalhe de cada regime é assunto do seu contador; para precificar, basta ter a estimativa anual na tabela.
Como precificar serviço autônomo sem ficar no prejuízo
Precificar serviço autônomo bem quase sempre significa vender projeto, não hora. O cliente prefere saber o preço fechado do resultado, e você deixa de ser punido por ficar mais rápido. Mesmo assim, o valor por hora continua indispensável: ele é o piso de segurança que diz se o projeto fecha ou não.
Quem também vende produto ou material calcula essa parte com markup, pelo método de como calcular preço de venda. Na prática, quem pensa em quanto cobrar por hora autônomo pode seguir quatro regras simples:
- Estime as horas do projeto e multiplique pelo seu valor por hora.
- Acrescente a margem de contingência para atraso do cliente e retrabalho.
- Defina no contrato quantas rodadas de revisão estão incluídas.
- Reajuste o valor por hora uma vez por ano, com os custos atualizados.
Se o preço fechado dividido pelas horas previstas ficar abaixo do piso, a resposta não é aceitar e correr mais: é reduzir o escopo ou recusar. Projeto abaixo do piso tira dinheiro do seu bolso, mesmo quando o valor total parece alto.
Não publicamos tabela de preço por hora por profissão porque não existe fonte pública confiável para isso no Brasil. O que circula na internet é média de anúncio de plataforma ou estimativa de blog, e usar esse número como referência empurra o mercado inteiro para baixo. Prefira ensinar a conta a si mesmo e complementar com pesquisa direta entre colegas da sua área.
Uma última fronteira, para não confundir dois problemas diferentes. Precificação é uma coisa, crédito é outra. Se o que você precisa agora não é saber quanto cobrar, e sim comprovar renda para pedir dinheiro emprestado sem holerite, o caminho é o guia de empréstimo para autônomo, que trata só disso.
E se o problema é ter caixa para começar o serviço, o guia de dinheiro para comprar material de trabalho compara as opções e os custos de cada uma.
A hora certa é a que cobre o seu ano inteiro, não o seu mês. Pegue a renda que você quer, some custos, reservas e impostos, meça as horas que você de fato vende e divida. Use os seus números na calculadora de taxa horária e guarde o resultado como piso de negociação para o próximo orçamento.
Perguntas frequentes
Freelancer tem direito a férias e 13º?
Não. Férias remuneradas e 13º salário são direitos de quem tem vínculo de emprego com carteira assinada. Quem trabalha por conta própria não recebe esses valores de ninguém, então precisa criar a própria reserva dentro do preço cobrado, mês a mês, para poder parar sem perder renda.
Quanto um freelancer ganha em média por hora no Brasil?
Não há estatística oficial de valor por hora por atividade freelancer no Brasil. O que existe é o rendimento médio do trabalhador por conta própria, apurado pelo IBGE na PNAD Contínua, que mede renda mensal e não preço de hora. São coisas diferentes.
Posso mudar meu valor por hora depois de fechar com o cliente?
No contrato em andamento, não: o preço combinado vale até a entrega do escopo acordado. O reajuste entra no próximo contrato ou na renovação, e fica mais fácil de sustentar quando você mostra a conta atualizada de custos e horas. Por isso vale revisar o valor uma vez por ano.
Conteúdo educacional, não é oferta de crédito nem consultoria financeira, contábil ou tributária individualizada. Condições de crédito variam por instituição e dependem de análise. O Juca atua como correspondente bancário de Instituições Financeiras parceiras, nos termos da Resolução CMN nº 3.954/2011.
Fontes
- Presidência da República: Lei nº 4.090/1962, gratificação de Natal
- Presidência da República: CLT, Decreto-Lei nº 5.452/1943
- Presidência da República: Constituição Federal de 1988
- Presidência da República: Lei nº 8.036/1990, FGTS
- Presidência da República: Lei nº 8.212/1991, custeio da Previdência Social
- Presidência da República: Lei nº 15.270/2025
- Ministério do Empreendedorismo: teto de faturamento do MEI
- Receita Federal: tabelas do imposto de renda 2026
- Receita Federal: Portal do Simples Nacional (DAS-MEI)
Tom Cerginer, cofundador do Juca e editor-chefe do blog. Engenheiro de Produção pela UFRJ e Correspondente Bancário certificado pela Febraban (FBB100, Correspondente Bancário Completo), com quatro anos de experiência em produtos de crédito para trabalhadores com carteira assinada e informais.